REPENSANDO O LIXO ORGÂNICO

22 de julho de 2018
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp

REPENSANDO O LIXO ORGÂNICO

 Maurício Waldman [i]

Quando o assunto em pauta são os modelos de recuperação dos resíduos, de pronto acionamos imagens de materiais recuperáveis como plásticos, metais, papéis e vidros.

Em seguida, também de modo imediato, recordamos do símbolo da reciclagem, dos catadores, de contêineres e demais aparatos que transformam aquilo que é considerado inservível, em bens que atendem as demandas do dia a dia e defendem o meio ambiente.

Ademais, esta percepção está referendada com a chancela da reciclabilidade, que invariavelmente, remete para itens inorgânicos, materiais e substâncias que um dia, foram retirados do subsolo, das massas líquidas ou de áreas florestadas.

Nesta ordem de considerações, note-se que poucos recordam a respeito da fração orgânica ou úmida do lixo, pauta que muitas vezes irrompe acobertada pelo signo da estranheza. É como se tratasse de assunto alheio à gestão dos resíduos, algo mais ligado à jardinagem e agricultura de fundo de quintal do que tema relacionado à problemática dos rejeitos.

As razões deste modo de entender a fração orgânica dos resíduos domiciliares, também classificada como lixo culinário, compostáveis e tecnicamente, de resíduos urbanos biodegradáveis (RUB), não decorrem da falta de argúcia das pessoas e muito menos de mero acaso.

Siga nosso instagram

Note-se que a despeito de constituir, comparativamente aos demais itens dos lixos residenciais, na mais reciclável fração das sobras – particularmente em razão de que sendo orgânica retorna com facilidade indiscutível para os ciclos da natureza – quase sempre esta categoria de rebotalhos termina de um modo ou de outro por ser ignorada, ou então, investida de graves ambiguidades.

Primeiramente, dado esquecido pela maioria dos mortais, pelo fato da reciclagem ser uma atividade econômica. Assim, as sucatas com maior valor agregado, justamente as que compõem a fração seca, se transformaram no foco da indústria recicladora.

Para exemplificar, sublinhe-se que ao longo da década passada, entre os anos 1999 e 2008, os percentuais de expansão do reaproveitamento dos materiais foram significativos.

A reciclagem dos papéis cresceu 163,2%; latas de alumino, 25,3%; latas de aço, 32,8%; vidros, 17,5%; pneus, 480%, embalagem longa vida, 160%; os plásticos, 41,3% e dentre estes, particularmente a sucata de PET, com 160,9% de aumento.

Em segundo lugar, atente-se que a própria literatura institucional sobre lixo cria confusão quanto à reciclagem dos orgânicos. A saber: a maioria dos manuais técnicos, obras de especialistas em resíduos e até mesmo os materiais de divulgação a respeito de reciclagem e meio ambiente, classificam as sobras em dois grupos: a fração úmida ou orgânica e a fração seca ou inorgânica, esta última rubricada como reciclável.

Logo, esta literatura, ao insistir numa dicotomia na qual apenas os inorgânicos são carimbados como recicláveis, certifica ajuizados que desconsideram os orgânicos como passíveis de recuperação.

Neste senso, é importante destacar o aspecto econômico da reciclagem porque é este o argumento que fornece a chave das contradições que rondam a gestão do lixo, seja no Brasil ou em qualquer país do mundo.

No que demonstra a forte inserção da reciclagem na esfera dos negócios, faz décadas que a compostagem do lixo orgânico patina em torno da marca histórica de 1,6% – 2,0% do total do lixo urbano do país.

Reconhecidamente, isto significa que parte considerável do lixo urbano fica fora do radar de preocupações dos cidadãos e das autoridades, fazendo com que as imensas potencialidades da reciclagem dos orgânicos também sejam ignoradas.

Confira-se que os RUB perfazem naco considerável do lixo gerado pelas cidades brasileiras. Dependendo da fonte consultada, a massa de detritos úmidos pode pender de um promedio de 50% a 70% do total dos resíduos urbanos, estimativas confirmadas, por exemplo, pela análise gravimétrica dos rebotalhos da cidade de São Paulo.

Maior metrópole nacional, São Paulo reúne 12 milhões de habitantes e contribui com 11,8% do PNB brasileiro. Porém, mesmo nesta urbe, investida do papel de polo central da espacialidade urbana do país, a fração úmida segue encabeçando a esplanada dos lixos. Em 2012, as médias alusivas à cidade indicam que 51% dos resíduos de origem domiciliar consistiam de lixo culinário.

Ora, sendo esta a porcentagem encontrada na maior metrópole nacional, o mínimo a se esperar é que os índices de lixo orgânico alcancem patamares ainda mais proeminentes noutros núcleos urbanos, sejam estes demograficamente expressivos ou não.

Neste sentido, o entendimento de que as prioridades de gestão dos resíduos estão se desviando de um foco essencial é inevitável. Ou seja, lado a lado com a reciclagem dos rejeitos secos, é óbvio que algo tem que ser feito com os resíduos úmidos.

Os RUB – frequentemente categorizados como “putrescíveis” no dialeto conservador típico dos Sistemas de Limpeza Urbana – estão conferidos de vasto potencial de reaproveitamento, aguardando por iniciativas como a geração de energia a partir do biogás, processamento do composto orgânico por centrais públicas e em especial, pelo avanço da compostagem doméstica nas residências.

Porém, mais do que ações estatocêntricas, o essencial é garantir a solução no contexto residencial, a partir do que cada cidadão pode levar adiante por si mesmo. Nesta linha de argumentação, os minhocários domésticos são a resposta mais apropriada ao alcance de todos.

Prática e versátil, a compostagem impediria que mais da metade do lixo urbano nacional seguisse para a calçada blindado nas malfadadas sacolinhas descartáveis, transformando os RUB num potente revitalizador de solos.

A compostagem doméstica é atualmente uma premissa básica nos sistemas de gestão de resíduos de várias nações da União Europeia, China e Índia, também conquistando adesão em muitos segmentos de opinião dos Estados Unidos.

Entendida, como de fato é, uma solução para conter o alastramento da geração de chorume – o inimigo número um dos corpos líquidos -, refreando o aquecimento global e impedindo que as empreiteiras continuem a faturar milhões simplesmente para sepultar lixo (e com isso, pavimentando o surgimento de ainda mais problemas para as gerações futuras), a compostagem doméstica aguarda pelo vital apoio de milhões de brasileiros.

Apoio este que tem como calço fundamental, a mudança de atitudes de cada cidadão frente ao lixo.

 whatsapp-botao

BIBLIOGRAFIA

BRASIL. Plano Nacional de Resíduos Sólidos: diagnóstico dos resíduos urbanos, agrosilvopastoris e a questão dos catadores. Comunicados do IPEA n°. 145. Disponível on line em:

< http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_alphacontent&view=alphacontent&Itemid=133 > Acesso em: 23/08/2015. 2012;

CEMPRE. Compostagem, a outra metade da Reciclagem. São Paulo: CEMPRE – Compromisso Empresarial para Reciclagem (CEMPRE). 2001;

IPEA. Diagnóstico dos Resíduos Sólidos Urbanos – Relatório de Pesquisa. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Brasília (DF): Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República. 2013;

WALDMAN, Maurício. Lixo Domiciliar no Brasil: Dinâmicas Sócio-Espaciais, Gestão de Resíduos e Ambiente Urbano – Relatório de Pesquisa de Pós-Doutorado. Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UNICAMP & Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico (CNPq). Campinas (SP): Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP-CNPq. 2011.

__________. Lixo: Cenários e Desafios – Abordagens básicas para entender os resíduos sólidos. São Paulo (SP): Cortez Editora, 2010;

[i] MAURÍCIO WALDMAN é antropólogo, jornalista, consultor, pesquisador acadêmico e professor universitário. Autor de 18 livros e de mais de 700 artigos, textos acadêmicos e pareceres de consultoria, Waldman é graduado em Sociologia (USP (1982), Mestre em Antropologia (USP, 1997), Doutor em Geografia (USP, 2006), Pós Doutor em Geociências (UNICAMP, 2011), Pós Doutor em Relações Internacionais (USP, 2013) e Pós Doutor em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015). Waldman foi Secretário do Meio Ambiente em São Bernardo do Campo (SP) e Chefe da Coleta Seletiva de Lixo (CSL) da capital paulista (LIMPURB). Dois dos Pós-Doutorados de Waldman tem os resíduos sólidos urbanos como tema central.

COMPARTILHE
Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on linkedin
LinkedIn
Share on whatsapp
WhatsApp