Crise Econômica e Consumo

24 de maio de 2020
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Com a Pandemia do Corona Vírus surge uma questão envolvendo Crise Econômica e Consumo

“A SANTIDADE DO CONSUMO”

Comprar é quase um ritual sagrado nos Estados Unidos. No rastro da tragédia do

11 de Setembro, o então presidente George W. Bush incluiu as compras entre as

atividades que representavam “repúdio máximo ao terrorismo”. Com o país

ainda em estado de choque, Bush disse para pendurarmos as plaquinhas de “A

América está aberta a negócios” nas janelas e continuar comprando. Segundo a

maioria dos especialistas em economia e política, deixar de comprar significa

frear a economia e ameaçar empregos; assim, comprar é patriótico, é nosso

dever.” (A História da Coisas, capítulo 4. Consumo)

Pandemia, crise econômica e Consumo: Como fica a questão do lixo

Antes de mais nada, no exato momento em que escrevemos este texto (maio de 2020), o mundo enfrenta aquela que é considerada a maior crise do capitalismo ocidental causada pela Pandemia do Corona Vírus. Nesse contexto, a necessidade de reativar as economias mundiais ecoa em declarações que lembram muito a do presidente George W. Bush citada logo acima, ou seja: precisamos arrumar uma forma de fazer as pessoas comprarem/consumirem mais. Não obstante, diante desse cenário, um dilema que parece saltar aos olhos é que o aumento no consumo, inevitavelmente, acaba impulsionando a geração de mais resíduos. Em consequência dos fatos, o objetivo deste texto é iniciar uma análise sobre as tensões entre Crise Econômica e Consumo.

Relação ‘Crise Econômica e consumo’ e gestão de resíduos

https://www.youtube.com/watch?v=UAijEBaJa7I

Há de se considerar, que já discutimos neste espaço a importância da gestão dos resíduos em uma perspectiva socioambiental. Da mesma forma, ressaltamos em diversos textos a relevância das práticas educativas ambientais. Definitivamente, sempre buscamos sensibilizar e instrumentalizar a sociedade sobre o seu papel (individual e coletivo) no gerenciamento dos resíduos, especialmente os orgânicos. Assim também, deve estar claro que a compostagem doméstica é uma excelente alternativa para a gestão dos resíduos urbanos. Mas, com qual frequência abordamos o “consumismo” nas nossas ações de educação ambiental !?! É desse tema que iremos tratar neste texto na sua relação: Crise Econômica e Consumo.

Sobre a legislação brasileira para a gestão do lixo urbano

Nosso país tem uma das mais completas legislações para a gestão de resíduos. Já abordamos a Política Nacional de Resíduos Sólidos (BRASIL, 2010) em diversos textos do blog. Um dos pontos mais interessantes da legislação é a ordem de prioridade para o gerenciamento dos resíduos no Brasil. A saber: a não geração, a redução, a reutilização, a reciclagem (entendemos que aqui se enquadram as práticas de compostagem doméstica), o tratamento, e, quando estas iniciativas não forem possíveis, a disposição final dos rejeitos.

De tempos em tempos alguns itens chegam a se tornar “vilões” da gestão de resíduos, como o glitter, o E.V.A., ou os canudos plásticos, mais recentemente. Seus impactos ao meio ambiente passam a ser discutidos amplamente, e por vezes algumas diretrizes legais são instituídas, restringindo seu consumo/comercialização. Geralmente, quando isso ocorre, surgem propostas para substituir tais produtos por outros menos impactantes ao ambiente. Todavia, alguns deles poderiam, simplesmente, NÃO serem mais consumidos.

Aumento da geração de Lixo e seu impacto para os gestores municipais

O artigo “Influência da compostagem e da reciclagem na vida útil de aterros sanitários – caso de Londrina/PR” (SANTOS; RODRIGUES; MORAES, 2020), publicado aqui no blog no início desse ano, indica que para o município de Londrina/PR, se todo resíduo reciclável ou compostável recebesse o tratamento adequado, a vida útil dos aterros sanitários poderia aumentar de 30 para 87 anos! E se praticássemos a “não geração”, consumindo de maneira sustentável, apenas o que realmente necessitamos? Conforme observamos, não gerar resíduos é, na ordem de prioridades para sua gestão, a primeira iniciativa a ser adotada pelos gestores públicos, iniciativa privada e também pelos cidadãos, em seu cotidiano!

IPTU

Quanto lixo cada pessoal gera diariamente?

Você já reparou na quantidade de embalagens que consumimos, diariamente? E na quantidade de resíduos que produzimos? Para cada saco de resíduos que geramos, são gerados outros 70, ao longo da cadeia produtiva (informação disponível no livro A História das Coisas, já divulgado no blog). Já refletiu a respeito da vida útil de algumas “coisas” que adquirimos? Alguns produtos ou suas embalagens imediatamente tornam-se resíduos após o uso (falamos aqui de minutos, como é o caso da compra de um lanche em fast food e todas as caixinhas, sacos, copos e talheres descartáveis, por exemplo). Os copos plásticos descartáveis, por exemplo, possuem vida útil de 13 segundos (Meu Copo Eco)!

Consumo vs consumismo

Porém, sabemos que diminuir o consumo não é algo tão simples quanto parece, a questão deve ser discutida em profundidade. Ilustra esta reflexão uma fala da professora Maluh Barciotte, na Conferência Internacional de Educação Ambiental de Bento Gonçalves/RS (novembro/2019) – a especialista abordou o consumo, numa análise literal do tema, relacionando seus impactos com a degradação ambiental. Afinal, consumir é “usar até se esgotar”, “os vermes consomem o cadáver, o fogo consome a floresta”.

Assim, em uma reflexão mais aprofundada, percebe-se que todo item que consumimos – até mesmo os produzidos com material reciclado – extraiu recursos naturais para sua produção, demandando água, energia e combustível também em seu transporte/distribuição. O próprio uso muitas vezes impacta o ambiente. E finalmente chegamos ao pós consumo: nosso tão desejado “bem de consumo” virou lixo! (Termo aqui usado por força de expressão) Qual descarte daremos a ele? É passível de reaproveitamento, reciclagem, compostagem? Como funciona a gestão de resíduos na minha cidade?!

E afinal, a gente precisava mesmo comprar aquilo? É um fato que o ser humano necessita consumir itens de necessidade básica como alimentação, abrigo, etc. Todavia, hoje consumimos não só para suprir necessidades básicas, mas, sobretudo, para suprir carências emocionais ou para nos sentirmos parte de um grupo.

Adiciona-se a isto a massiva pressão exercida pela publicidade, para que se consuma muito, o tempo todo, sob a garantia de felicidade sem fim e teremos o perfil do consumidor moderno.  Mas, o que nos impulsiona a consumir coisas que não são de necessidade básica? Será que o Consumo tem relação estreita com a tão desejada Felicidade?

Pensando em todos os aspectos que expomos de maneira muito breve nesta escrita introdutória, refletiremos nos próximos textos sobre os impactos do consumo na humanidade e no ambiente, debatendo especialmente a respeito da necessária não geração de resíduos.

Discutiremos sobre o aumento do consumo, em âmbito nacional e global, refletindo sobre o consumismo (afinal, são sinônimos!?!) e os impactos da publicidade sobre nosso modo de vida (a exemplo da obsolescência programada e percebida). E apresentaremos alternativas de consumo consciente, pois boas práticas já vêm sendo desenvolvidas em diferentes setores. Consumir de maneira consciente é uma estratégia para não ser “consumido pelo consumo”.

Kit Composteira Doméstica – M (para 2 ou 3 pessoas)

 

Autores:

  • Vanessa Schweitzer dos Santos é doutora em qualidade ambiental, atualmente professora na rede municipal de ensino de Novo Hamburgo, onde presta assessoria pedagógica; além de professora na Verbo Educacional. Lattes: http://lattes.cnpq.br/7321903706271097
  • Rafael Holsback é cofundador da empresa gaúcha Compostchêira, com Formação em Filosofia pela UFRGS e Mestre em Ensino de Filosofia pela UFRGS.

Referências:

BARBOSA. O desafio do desenvolvimento sustentável. Revista Visões. v.1, n.4. 2008.

BRASIL. Lei n° 12.305, de 2 de agosto de 2010. Institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm>.

LEONARD, Annie. A História das Coisas: da natureza ao lixo, o que acontece com tudo que consumimos – Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

SANTOS; MARTINS. Agroecologia, consumo sustentável e aprendizado coletivo no Brasil. Educ. Pesqui. v.38, n.2, 2012.

SANTOS; RODRIGUES; MORAES. Influência da compostagem e da reciclagem na vida útil de aterros sanitários – caso de Londrina/PR. Blog Compostchêira. Disponível em: https://compostcheira.eco.br/influencia-da-compostagem-e-da-reciclagem-na-vida-util-de-aterros-sanitarios-caso-de-londrina-pr/, 2020.

WWF. Cartilha para o Consumidor responsável. 2014. Disponível em: https://www.wwf.org.br/?41822/Cartilha-para-o-Consumidor-Responsvel—Dicas-prticas-para-voc-colaborar-com-o-meio-ambiente-no-seu-dia-a-dia

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