BRASIL: País sem Lixologia

18 de abril de 2018
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Maurício Waldman [i]

          Invariavelmente, quando cito o termo lixologia em sala de aula, bancas de pós-graduação ou em palestras, sempre há quem considere esta palavra um neologismo, saído espontaneamente da minha mente num momento de empolgação.

Contudo, entenda-se que a lixologia, ou garbology, em inglês, faz décadas que se tornou em vários países um campo específico do saber, e inclusive, como acontece em departamentos acadêmicos de países do Hemisfério Norte, uma disciplina, tal como a geografia, a química ou filosofia.

Identificando então como esta expressão surge no campo dos estudos dos resíduos, temos que neste particular, o nome do antropólogo norte-americano William Bill Rathje desponta como menção obrigatória.

Vamos ao ponto: a obra de Rathje se fundamenta na formulação de que a forma como os resíduos são gerados e gerenciados refletem o modo de vida dos grupos humanos a eles associados.

Foco na Compostagem Doméstica

Implicitamente, o lixo revelaria, dispensando acepções mecanicistas, os desígnios sociais dos grupos, e mais ainda, não haveria como desvincular qualquer vestígio material das comunidades dos processos que respaldam o surgimento dos refugos, plenos de inferências sociais, culturais, políticas, tecnológicas e históricas articuladas aos que descartam.

Foi exatamente este conceito basilar que norteou o Tucson Garbage Project, uma inovadora proposta datada de 1973, levada adiante sob orientação de Rathje, que para tanto utilizou metodologias da arqueologia.

Analisando o que encontrava nas lixeiras dos cidadãos de Tucson, o pesquisador identificou níveis de desperdício e hábitos sociais, bem como os padrões de consumo imperantes nos domicílios da cidade.

Mais adiante, Rathje repetiu esta metodologia em iniciativas mais audaciosas, dentre estas, a prospecção do assustador aterro de Fresh Kills, de Nova York, o maior do mundo

aterro de Nova York foi transformado em uma imensa área verde

Revolvendo toneladas de lixo, a laboriosa pesquisa de campo realizada pelo Doutor Rathje granjeou-lhe fama mundial. Em 1990 recebeu o Prêmio Compreensão Pública da Ciência e Tecnologia, oferecido pela American Association for the Advancement of Science (AAAS: Associação Americana para o Avanço da Ciência).

No mais, a sagacidade da proposta de Rathje residiu na sua capacidade de questionar explicações esquemáticas e de propor novos modelos de interpretação sobre a questão das sobras, calçando-as com matrizes oriundas de múltiplas modalidades de coleta de dados.

Nesta lógica de argumentação, Rathje advertia constantemente para a necessidade de explicitar os mecanismos da geração do lixo, tanto na sua singularidade quanto nas conexões mantidas com as esferas do social, cultural e econômico.

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Com base neste recorte, propôs modelos de interpretação construídos com métricas obtidas em pesquisas de campo, no imaginário e na peritagem do lixo urbano.

Esta moldura conceitual originou a Garbology, junção de garbage, lixo e archeology, arqueologia, termo passível de ser traduzido para lixologia em português, e que nos dias de hoje, está definitivamente consolidada como campo específico do saber.

O legado de Rathje é vasto e fundamental. Hoje a lixologia consta, como foi dito, como cadeira acadêmica em universidades em todo o mundo e obra do antropólogo, é objeto de sucessivas reedições. Por sinal, desde 1975 garbology está dicionarizado pelo prestigiado Oxford English Dictionary.

Infelizmente, cabe comentar que no Brasil a obra de Rathje é ignorada. Rápida consulta na internet informa que os trabalhos acadêmicos que ao menos citam Rathje não passam dos dedos de uma mão. Lixologia nem mesmo transita no universo vocabular acadêmico. Isto quando não é alvo de chacota.

Trata-se de lacuna que pelo mínimo motivaria atenção da universidade brasileira, em especial dos estudiosos do lixo. Os resíduos sólidos merecem respeito. A obra de William Rathje também.

BIBLIOGRAFIA

RATHJE, Willian et MURPHY, Cullen. Rubbish! The Archaeology of garbage. Tucson (Arizona, EUA): The University of Arizona Press. 2001;

RENFREW, Colin. A Nova Arqueologia. Revista O Correio, UNESCO, nº. 9. Setembro de 1985, pp. 4-8. Rio de Janeiro (RJ): Fundação Getúlio Vargas – Instituto de Documentação. 1985;

WALDMAN, Maurício. Lixo Domiciliar no Brasil: Dinâmicas Sócio-Espaciais, Gestão de Resíduos e Ambiente Urbano – Relatório de Pesquisa de Pós-Doutorado. Departamento de Geografia do Instituto de Geociências da UNICAMP & Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento Científico (CNPq). Campinas (SP): Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP-CNPq. 2011.

__________. Lixo: Cenários e Desafios – Abordagens básicas para entender os resíduos sólidos. São Paulo (SP): Cortez Editora, 2010;

[i] MAURÍCIO WALDMAN é antropólogo, jornalista, consultor, pesquisador acadêmico e professor universitário. Autor de 18 livros e de mais de 700 artigos, textos acadêmicos e pareceres de consultoria, Waldman é graduado em Sociologia (USP (1982), Mestre em Antropologia (USP, 1997), Doutor em Geografia (USP, 2006), Pós Doutor em Geociências (UNICAMP, 2011), Pós Doutor em Relações Internacionais (USP, 2013) e Pós Doutor em Meio Ambiente (PNPD-CAPES, 2015). Waldman foi Secretário do Meio Ambiente em São Bernardo do Campo (SP) e Chefe da Coleta Seletiva de Lixo (CSL) da capital paulista (LIMPURB). Dois dos Pós-Doutorados de Waldman tem os resíduos sólidos urbanos como tema central.

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